A Economia, como ciência comportamental, baseia-se na análise de custo e benefício: as pessoas escolhem A em vez de B porque a relação entre os ganhos e as perdas é melhor em A do que em B. Como “rainha das ciências sociais” (há quem diga ditadora), a Economia e os economistas tratam de aplicar este princípio às mais variadas situações.
Vem isto a propósito das recentes eleições europeias. Muitos acham chocante que a abstenção tenha sido tão alta. Mas para um economista, o que surpreende é que a abstenção tenha sido tão baixa. De facto, a probabilidade que o meu voto tenha algum efeito é baixíssima, pelo que o benefício esperado de ir às urnas é praticamente nulo. O custo, pelo contrário, é positivo (mesmo que não seja muito elevado).
Porquê, então, votar? Para muitas pessoas, a questão nem sequer se coloca: é um dever cívico, é algo que me faz sentir bem, etc. Por outras palavras, não se trata somente de uma questão de ganhos e perdas (pelo menos não da forma “crua” seguida pela análise económica).
Este é um entre muitos exemplos que mostram os limites da abordagem económica aos problemas. O método da Economia, tal como o de cada ciência particular, “funciona” bem dentro do seu âmbito restrito. Até a “rainha das ciências sociais” têm um “reino” limitado.
(Página 1, 20 Junho 2009)
2009 / 06 / 30 at 1:58 pm
Caro Luis,
Será que consegue resumir as razões pelas quais a economia não entra em conta este tipo de motivações nas suas análises?
Obrigado,
2009 / 07 / 9 at 6:25 pm
“Vem isto a propósito das recentes eleições europeias. Muitos acham chocante que a abstenção tenha sido tão alta. Mas para um economista, o que surpreende é que a abstenção tenha sido tão baixa. De facto, a probabilidade que o meu voto tenha algum efeito é baixíssima, pelo que o benefício esperado de ir às urnas é praticamente nulo”
Este argumento está incompleto. Se o levarmos até às últimas consequências, concluimos que não vale a pena ir votar, dado que a probabilidade do nosso voto ser decisivo é praticamente nula.
Mas, nesse caso, ninguém iria votar, o que faria com que a probabilidade de o meu voto ser decisivo fosse de 100%. Se ninguém vota, é o meu voto que decide tudo. Mas claro, se toda a gente pensar assim, vai toda a gente votar.
O equilíbrio é, naturalmente, uma estratégia mista. Vai-se votar com uma dada probabilidade estritamente positiva.
2009 / 07 / 9 at 6:26 pm
“Será que consegue resumir as razões pelas quais a economia não entra em conta este tipo de motivações nas suas análises?”
Mas claro que entra. Há muitos modelos que têm essas motivações em consideração.
2009 / 07 / 9 at 7:58 pm
“O equilíbrio é, naturalmente, uma estratégia mista. Vai-se votar com uma dada probabilidade estritamente positiva.”
Nesse equilíbrio em estratégias mistas, cada votante estaria indiferente entre votar e não votar, pelo que o benefício médio de votar tem de ser igual ao custo. Ora probabilidade de que o meu voto é decisivo dado que milhões de outras pessoas votam é praticamente zero, pelo que, dados os números actualmente observados, não parece que estejamos a observar esse tal equilíbrio em estratégias mistas.