Democracias como a nossa — em que o governo normalmente domina o Parlamento e todo o aparelho de Estado — revelam um desequilíbrio perigoso: a tendência dificilmente controlável para a grande obra pública. As forças despesistas são múltiplas: Em primeiro lugar, temos o dividendo político do visível (por exemplo, a Expo 98 ou o Euro 04). Em segundo lugar, com as “imprevisíveis” mas inevitáveis “derrapagens” orçamentais, o investimento público proporciona múltiplas oportunidades para retribuir favores.
Contra estas forças dominantes, a resistência do contribuinte é muito fraca. Por um lado, cada contribuinte, isoladamente, tem um peso pequeno. Por outro lado, grande parte dos pagantes ainda não nasceram ou são muito novos para perceber o que se passa.
Noutro tipo de democracia o cidadão ainda poderia pressionar o seu representante no parlamento. Mas em Portugal falar com um deputado ou falar com um ministro — vai tudo dar ao mesmo.
Por estes motivos, foi com enorme satisfação que li o apelo à prudência nas decisões sobre o TGV assinado por 28 personalidades. Sei que são todos reputados economistas, ex-governantes, figuras de grande nível. Mas em certo sentido o que mais importa é que são 28 cidadãos conscientes de que a democracia não é simplesmente deixar as instituições seguir o seu curso.
(Página 1, 3 Julho 2009)