Texto de uma entrevista sobre a recente encíclica de Bento XVI.
- Num texto de opinião no jornal ‘página1’, da Rádio Renascença, escreveu que a encíclica ‘Caritas in veritate’ é “um documento que, indiscutivelmente, virá a ser reconhecido como um marco histórico”. Porquê esta afirmação?
Desde há muito tempo, o mundo da economia tem olhado para a Doutrina Social da Igreja como uma declaração de posicionamento no espaço político: agora a Igreja está mais próxima do socialismo, agora está mais próxima do capitalismo, etc. A radicalidade do discurso de Bento XVI mostra de uma forma mais clara que nunca que a Igreja – a doutrina de Cristo – se encontra num plano diferente do espaço esquerda-direita. A atitude “de supermercado” (compro só o que quero) torna-se particularmente difícil com este documento. As pessoas serão obrigadas a pensar. O que é bom.
- Uma das maiores novidades da encíclica reside no apelo a que a lógica do dom e da gratuidade se integrem plenamente no âmbito da vida económica e do mercado. A lógica do dom entra na economia?
A lógica do dom entra – ou deve entrar – em tudo o que é humano. Esta é a ideia central da encíclica. Não é uma ideia muito complicada nem é uma ideia muito nova: é a doutrina cristã, que já tem cerca de 2000 anos. Mas a forma como Bento XVI a coloca em “Caritas in Veritate” tem algo de “revolucionário”: a ideia de que o dom não é algo para complementar a actividade económica, antes que deve estar no centro da actividade económica; a ideia de que, para além da “lógica da transacção” e da “lógica dos comportamentos públicos impostos por lei pelo Estado”, pode e deve existir um espaço para a lógica do “dom recíproco”.
- No ponto 34 da encíclica o Papa diz mesmo que o “desenvolvimento económico, social e político precisa, se quiser ser autenticamente humano, de dar espaço ao princípio da gratuidade como expressão de fraternidade”. Nos tempos que correm, é possível este princípio da gratuidade?
Não só é possível como de certa forma já o encontramos em muitas situações da vida económica corrente. Adam Smith, de alguma forma o fundador da economia, baseou a sua análise na premissa de que não existe gratuidade na relação económica: “Não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover o seu próprio interesse.” Mas já reparou quanto faz por si um médico, um professor – e, sim, também um padeiro – que vai para além do “seu próprio interesse”? Na verdade, a gratuidade existe pelo mundo fora. Tal como escreve o Romano Pontífice, “a gratuidade está presente na sua vida sob múltiplas formas, que frequentemente lhe passam despercebidas por causa duma visão meramente produtiva e utilitarista da existência”. É como o Mr. Jourdain da peça do Molière, que um dia aprendeu o que é a prosa (“tudo o que não é verso”, diz Le Maitre) e concluiu (com espanto) que “durante mais de 40 anos tenho feito prosa”. Toda a nossa vida temos sido a origem ou o receptor de alguma forma de gratuidade. Trata-se pois de as identificar melhor – e de lhes dar “espaço”, como indica o Papa.
- Um ponto importante é também o facto de Bento XVI não condenar o lucro. “O lucro é útil se, como meio, for orientado para um fim que lhe indique o sentido e o modo como o produzir e utilizar” (nº 21). Como vê esta afirmação?
Esta afirmação é parte de um ponto mais geral da Doutrina Social da Igreja que Bento XVI recapitula na presente encíclica: a ideia de que o lucro, o mercado, a meritocracia são óptimos quando considerados como meio para chegar ao fim do bem comum; mas péssimos quando considerados como um fim em si. Se por um lado o lucro como fim é uma forma de idolatria, também a rejeição pura e simples do lucro e da lógica do mercado é uma grande asneira.
- Acredita que está a aumentar a consciência sobre a necessidade de uma mais ampla ‘responsabilidade social’ da empresa?
Sim. Infelizmente, nalguns casos a responsabilidade social não é mais do que subscrever a “ética” do politicamente correcto (por exemplo, ser “ético” consiste em utilizar apenas produtos naturais). Mas a tendência é positiva: a convicção de que o lucro não é o objectivo único nem o objectivo último da empresa. Felizmente, encontramos muitas casos em que isto acontece. Aliás, neste sentido o Romano Pontífice vai mais longe, ao afirmar que “é preciso que, no mercado, se abram espaços para actividades económicas realizadas por sujeitos que livremente escolhem configurar o próprio agir segundo princípios diversos do puro lucro, sem por isso renunciar a produzir valor económico”.
- Alguns analistas consideram que a encíclica lembra os políticos, empresários, economistas e sindicalistas que as crises económicas escondem uma crise moral. Concorda com esta visão?
É inegável que houve problemas técnicos na base da crise económica (nomeadamente a deficiente regulação dos mercados financeiros). Mas é também patente que – utilizando os termos de Bento XVI – o “superdesenvolvimento” das últimas décadas tem sido acompanhado por um “subdesenvolvimento moral”, diria mesmo um retrocesso moral.
- O que é necessário para que a encíclica ‘Caritas in veritate’ chegue aos líderes políticos e económicos?
Em primeiro lugar, é preciso que os líderes leiam a encíclica – sejam ou não católicos, pois trata-se de um texto dirigido a “todos os homens de boa vontade”. Em segundo lugar, é necessária uma certa humildade. A reacção natural de um economista é perguntar-se “o que é que o Papa sabe de economia para vir dar lições”? De facto, o Papa sabe pouco sobre as questões mais técnicas de política e economia – ele próprio escreve que “a Igreja não tem soluções técnicas para oferecer e não pretende de modo algum imiscuir-se na política dos Estados”. Mas ele é o representante de Cristo, e para compreender o homem é necessário compreender Cristo, o verdadeiro homem. Por isso a Igreja “tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir” – e uma vantagem muito grande relativamente aos líderes políticos e económicos.